os filhos dos hippies


A partir de amanhã estarei fora da minha cidade por, no mínimo, dois meses. Vou fazer a cobertura jornalística da campanha eleitoral da médica Glória Geane, candidata a prefeita da cidade de Uiraúna, no Oeste do Estado. Uma espécie de assessoria de imprensa. Ordens do meu diretor (até me lembrei de Drummond assessorando o Capanema em Brasília, guardadas as devidas proporções, claro).

Acho que, mesmo um pouco distante e com a agenda mais carregada que o nornal, não deixarei de publicar diariamente aqui no blog. Provavelmente me disponibilizarão um apartamento do tipo não recomendável para claustrofóbicos, com um colxão sem mola (não uma cama, eu disse um colxão apenas) e um computador. De resto, basta que haja bastante café, cigarros, uma tv e algum aparelho em que eu possa ouvir rock'n roll. Aí faço meu trabalho tranquilo.

Dizem que Uiraúna é a terra dos músicos aqui na Paraíba. Se me sobrar algum tempo livre durante as noites, talvez eu saia em busca de algum para trocarmos experiências. Dizem também que ela é a terra dos sacerdotes. Quem sabe será desta vez que eu me confesso com algum padre, se é que eu ainda preciso me confessar mais do que faço na minha poesia.

A primeira impressão que tive da cidade, quando a visitei há uma semana para assinar os contratos, foi de um lugar aconchegante, simples, pequeno, mas bem animado. Conheci o marido da candidata e também conheci o atual prefeito. Tomei suco de maracujá com a cúpula política da Situação, que apóia Geane, e vi um enterro enorme passar: um cara matou a esposa e se matou em seguida. Tive a ligeira impressão de que aquele lugar vai me gerar muitas histórias.



Escrito por jocivan pinheiro às 09h12
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QUE PASTELÃO!

Da coluna semanal 'Opinião', do portal de notícias Diário do Sertão

 

 

Vinha eu passando pelo centro da cidade de Sousa, daquela maneira falsamente distraída que me é peculiar, quando meus ouvidos de morcego e meus olhos de lince perceberam um papo estranho numa barraquinha logo ali, em frente à faculdade de Direito. Três homens enchiam as bochechas:

 

- O Fábio Tayrone tá mais gostoso, confirmou um.

- Faz o seguinte: me dá um Lúcio Dias aí, com bastante pimenta, pediu o outro.

- Não vai comer um André Gadelha, perguntou o terceiro.

- Mete mais ameixas no Jota Cândido, rapaz!

 

Tratava-se, pois, da barraca do Fernando dos Pasteis. O cara, que não é bobo nem nada, e com uma veia empreendedora típica do brasileiro que se vira como pode, resolveu aproveitar a efervescência política que Sousa atravessa e com uma sacada de marketing de mestre, criou os pasteis com os nomes dos candidatos a prefeito da cidade.

São quatro sabores: o pastel Fábio Tayrone é de catupiri. O André Gadelha tem salame e bastante azeitona. Já o Lúcio Matos traz uma camada de orégano por cima. E, por fim, o Jota Cândido, que surpreende com a mistura de ameixa.

As vendas triplicaram em poucos dias. E não foi só isso. Enquanto eu comia um Fábio Tayrone acompanhado de um pingado de café com leite, Fernando me confidenciou também alguns segredos mais recônditos do mundo dos pastelões... Digo: das pastelarias. Veja:

 

1º: todo pastel deve ser feito com queijo mussarela, aquele que, depois de certo tempo, não cheira a boa coisa.

2º: não amasse a massa com tanta força. Você nunca sabe o que um pastel vingativo pode fazer com você depois.

3º: economize recheio. A gente sabe que por fora os pasteis podem ser lindos, mas por dentro, metade é puro vento.

4º e último: pastel é um negócio que enjoa rápido. Mude de sabor com certa freqüência.

 

Jocivan Pinheiro



Escrito por jocivan pinheiro às 12h15
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MOTIVO nada mais é que o porquê. Ex: “Não foi namorar porque preferiu ficar jogando bola.” O motivo de não ter ido namorar e ter perdido a Dasdores para o Nonato foi o fato de ter ficado jogando bola.

O que acontece é que algo o levou a preferir ficar jogando bola em plena noite de sábado enquanto Dasdores o esperava em casa, fazendo sala para Dona Eulália. A MOTIVAÇÃO.

Diz-se que o convidaram para uma aposta de duzentos reais por uma partidinha de quarenta minutos. Dois tempos de quinze e um descanso de dez. E seu time era muito bom. Aí está, portanto, a motivação: duzentas pilas. Aliás, cinqüenta, porque as duzentas seriam divididas entre os quatro jogadores do time.

Resumindo, a motivação é o objeto do motivo, o objeto do porquê.

Motivação... Moti... Vação... Motivo + Ação. Por assim dizer, então, motivação é a ação do motivo. No nosso exemplo, por exemplo, a ação do motivo, a ação que gerou o porquê foi a dele ter ficado jogando bola. Ué! Mas ele ter ficado jogando bola já não é o motivo? Então ele ter ficado jogando bola não pode ser a motivação porque já é o motivo. Então a motivação tem que ser algo concreto, como um objeto. Então a motivação não deveria se chamar motivação, mas sim MOTIVOJETO. O motivojeto que o levou a ficar jogando bola foi os cinqüenta mangos.

O problema é que a minha proposta de estabelecer o motivojeto na gramática portuguesa no lugar da motivação ainda não foi aceita, bem como a MOTIVIDADE.

A motividade? A motividade, que também é coisa minha, é a atividade que motiva, ou seja, a persuasão. No nosso exemplo, por exemplo, a persuasão é personificada no tempo do jogo de bola (disse que a partida seria rápida. Portanto, daria tempo de jogar e ainda encontrar-se com a Dasdores) e no seu time (seu time era muito bom. O Pedrão Lapada era o ala esquerdo, Tulinho o goleiro, Boca de Mola na outra ala, e ele fixo lá na frente. As chances de vencer eram grandes). Está explicada a motividade?

Também levei a motividade para eles avaliarem. Acabaram rindo da minha cara. Pelo menos o motivojeto prometeram pensar sobre o caso.

- Posso saber por que estão rindo? – Perguntei fazendo cara de psicopata.

Engoliram o deboche, pigarrearam e se calaram. Então fui embora prometendo voltar. Desta vez com as orações subordinadas, que já é uma outra história.



Escrito por jocivan pinheiro às 12h21
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 Raphaell Maciel

Lá se vai meu parceiro para o Rio Grande do Norte. Demorou pra ele deixar essa provinciana cidade. Agora não sei mais com quem vou compor - Apesar que fazia tempo que a gente não compunha. Seu curso de Automação Industrial, o mesmo que está levando ele pra fazer mestrado em Natal, praticamente não nos dava mais tempo e inspiração pra isso. Mas vai lá, meu amigo, vai lá! Já compomos muita música juntos, já tocamos em bons festivais por aqui, mas sua paixão pelas máquinas foi maior que pela Arte, e certamente dá mais dinheiro. Importante!

Chato é ver que tudo indica que a história do clã Maciel em Cajazeiras está acabando. Antes, já havia ido embora pra Campina Grande seu pai, o velho guerreiro Ronaldo. Depois, a irmãzinha Rayanne, passou no vestibular pra Odontologia e tirou fora pra Campina Grande também. Agora é sua vez. Como eu já disse, o mestrado em Automação Industrial e as dunas de Natal o esperam. Mas nossa viagem para João Pessoa para defender nosso xotezinho Por Esperar, no 1º CEFEST - Festival de Música do Cefet - vai ficar pra sempre na memória das nossas retinas fatigadas. Assim como o show dado no 20º Festival da Canção da Paraíba, com aquela guitarrazinha escrota do Maestro Erivan e o vocal manhoso de Suiamya. Valeu a pena cada momento, até os mais comuns, como quando a gente brincava dizendo que íamos ser os novos Tom e Vinícius da música popular brasileira.

Vai à luta, companheiro! Obrigado pela amizade, pelas músicas compostas juntos, quase sempre naquele esquema: a letra é minha, a melodia é sua, viu! Obrigado pelo bolo e os salgadinhos na festa de despedida de ontem. Aliás, obrigado nada! Quem pagou por tudo aquilo fomos nós.

Ele e a namorada Suiamya Rodrigues, defendendo a música Descompasso, no 20º Festival da Canção da Paraíba



Escrito por jocivan pinheiro às 18h00
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MEU HERÓI

Crônica de 1993

 

 

Já não sou mais o mesmo, mas inventei de jogar bola com meu filho no campinho de terra batida que fica na baixa, perto da casa dos Paiva. Programei tudo: para evitar vergonha maior, pedi que ele me deixasse ficar de goleiro; assim, acreditei, me cansaria menos e conseguiria me manter inteiro até o fim da pelada; provaria que sou um paisão dos mais firmes e fortes e pronto: meu fim-de-semana com ele estaria garantido.

Mas nem tudo saiu como o programado. Nunca pensei que o moleque chutasse tanto e tão rápido e tão forte. Dei maior vexame. Depois de vergonhosos vinte minutos, pedi arrêgo, sentei de pernas abertas em baixo das traves, barriga encharcando a terra de suor e tirei dois palmos de língua para fora. Estava morto. Então tive que improvisar.

- Ah não, pai! Quero jogar mais.

- Filhão, senta aqui. Seu pai está velho, entende?

- Velho? Então não é mais meu herói?

- Claro que sim! Mas até os heróis envelhecem. Ou você acha que o Super-Homem e o Batman continuam daquele jeito que você vê no desenho animado?

- Não?

- Rum, rum! Hoje em dia o Super-Homem nem sai mais de casa.

- Ué! Por quê?

- Porque ele sofre de reumatismo, filho. Reumatismo é uma dor que dá nos ossos dos velhinhos. É terrível! Sem contar que ele não enxerga quase nada.

- Então ele não usa mais a Visão Raio-X?

- Mas que nada! Usa óculos, isto sim.

- E o Batman?

- Xi! Esse pior! Virou um velho gágá. Anda em cadeira de rodas e não diz coisa com coisa. Passa o dia na varanda soltando piadinhas para as moças que passam na calçada. O sinto de utilidades dele não guarda mais que meia dúzia de remédios para hipertensão.

- Hipertensão? O que é isso?

- É aquilo que faz sua avó desmaiar de vez em quando.

- Ah! E o Gavião Negro, pai?

- Nossa! Esse está mais para frango depenado. Já caíram as duas asas.

- O que aconteceu?

- Já ouviu falar em calvície, filho?

- Não.

- É o que faz nosso cabelo cair quando a gente está velho.

- Então a calvície fez as penas dele cair, pai?

- Exatamente.

- E a Mulher-Maravilha... Também envelheceu?

- Também. Virou uma velha carola, dessas que passam o dia na igreja ou na cozinha rezando o terço ou fazendo tricô, igual sua avó.

- ...

- ...

- Pai?

- Diz, filho.

- Como é que você sabe de tudo isso?

- Ora! Sabendo, filho. Sabendo.

- Pai?

- Diz.

- Não quero ficar velho não.

- O pior é que vai, filho. O pior é que vai. Mas você está longe disso. Até lá tem muita bola pra rolar.

 

Jocivan Pinheiro



Escrito por jocivan pinheiro às 11h55
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